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Refazer o negócio dos media

refazer o negócio dos media

 

O ano de 2015 está a terminar e com ele surge uma incerteza sobre o futuro do jornalismo, dos jornais, dos jornalistas. Ao longo das últimas décadas que o negócio dos media assentou em estratégias de interesses económicos, empresários e grupos que acreditaram que possuir um jornal serve os seus interesses e os dos seus "amigos" influentes.

Ignorar este facto é deixar de lado uma das razões que trouxe os media ao estado que hoje todos conhecem.

 

É fácil criticar um jornalista por uma vírgula fora do sítio, por um qualquer erro de escrita. Mas ninguém questiona o facto dos jornais serem escritos, todos os dias, em meia dúzia de horas sem que haja a figura do revisor que escrutinava a escrita e corrigia estes erros, por exemplo.

 

As redações foram emagrecendo, limpando funções e mesmo os jornalistas com mais experiência são afastados e substituídos facilmente por estagiários ou até por pessoas sem formação em jornalismo. Será mais jornalista alguém que tem formação na área? Não, haverá exceções! Mas é por essa razão que nem todos os formados chegam a entrar na profissão. Esses, que optam por outro caminho, talvez sejam os mais inteligentes, os que percebem cedo que ser jornalista significa ter um curso superior, trabalhar mais de 12 horas por dia, receber salários na maioria próximo dos 900 euros, uma grande parte a recibos verdes... e podia continuar. É preciso ter amor pela profissão para ser jornalista.

 

Tal como escreveu uma das jornalistas do Económico no Facebook: "Enquanto houver pão duro, há rabanadas." E o Natal está aí à porta.

 

Sim, chegou a vez do Diário Económico, um projeto líder em Portugal, com jornalistas de topo, com salários, na maioria, dos mais baixos do mercado e em atraso. Hoje, tal como ontem, a notícia é a penhora pelo Fisco das contas bancárias onde estava o dinheiro de parte dos salários que iriam ser pagos, já fora de prazo, a quem faz sair o jornal todos os dias. Apesar de não receberem o salário, continuam a mostrar profissionalismo e amor à camisola. Não dura sempre, nem pode. Ir trabalhar, significa um custo, para muitos dos jornalistas, insuportável sem receber salário.

Os jornais em papel continuam a irão continuar a ter espaço. Mas o negócio tem de ser repensado. 

A questão agora está na força que a administração terá para negociar com as Finanças o desbloqueio das verbas penhoradas.

 

Há meses que se fala da instabilidade do grupo económico que detém o título. A Ongoing, de Nuno Vasconcelos, era o maior acionistas individual da Portugal Telecom. O império ruiu como tudo o resto que desmoronou com a queda da PT. Os rumores sobre a venda do título multiplicam-se e, segundo consta, há apenas um interessado. Domingos Vunge, angolano que tem manifestado interesse em diversos meios de comunicação social portugueses, incluindo a própria RTP.

 

No entanto, este é apenas o nome conhecido de um grupo de acionistas desconhecidos. Os verdadeiros proprietários da Newshold, empresa que Vunge representa, é participada a 95% pela offshore Pineview Overseas, registada no Panamá.

 

Por mais que se escreva, ninguém aponta o dedo às decisões administrativas que empurram projetos editoriais com mais de 20 anos para o abismo. Essa é a componente lúdica das notícias sobre os despedimentos. Fala-se das ligações acionistas, dos interesses de empresários angolanos em dominar a comunicação social em Portugal, para depois se atingir o ponto em que o jornal I e Sol chegaram há menos de um mês.

 

Falta união na profissão. Um jornalista é capaz de estar a escrever uma história sobre uma qualquer fábrica com salários em atraso, com trabalhadores a recibos verdes, quando o próprio jornalista está inserido numa redação com piores condições do que as que descreve.

Do lado de quem lê, está sempre um público que gosta de estar informado mas que recusa pagar pela informação e, em muitos casos, ainda critica as páginas de publicidade, ou os banners, quando se fala em sites na Internet.

 

Está um público que critica a "agressividade" do estilo do jornalismo sensacionalista, como o Correio da Manhã, mas continua a comprar o jornal. Porque, no fim do dia, apesar das dezenas de atropelos que fazem, desnecessariamente, às regras da deontologia profissional, são os únicos a levantar o véu para alguns temas inconvenientes. Vale a pena reforçar que, em jornalismo, não vale tudo!

 

O futuro está no digital? 

Antes de mais, o presente já é digital. Sempre que a conversa paira sobre qual o futuro do jornalismo, invariavelmente se deriva para a morte anunciada do papel e a necessidade da migração para o digital. Não tem de ser exatamente assim. Há espaço para jornais em papel, tal como haverá para os livros, apesar das versões digitais, mas é essencial uma mudança de paradigma.

 

O crescimento de projetos online está assente na divulgação de conteúdos, na maior parte dos casos, copiados dos jornais em papel que tiveram o esforço e custo de os produzir. Mas quem ganha o dinheiro com o conteúdo, uma vez que o papel não é comprado, são as dezenas de sites que têm estagiários a "picar" as notícias originais logo pela manhã. Estes projetos são lucrativos e possuem estruturas maiores e se calhar até com salários mais elevados do que aqueles que são pagos aos jornalistas nas redações a sério. Portanto, desde logo se pode tirar uma conclusão, o custo está do lado da produção e não nos salários dos jornalistas.

Quem defende que deve ler de forma gratuita as notícias dos jornais, e considera injusto pagar por isso, deveria pensar na sua área profissional. Devo eu trabalhar de borla e oferecer o que produzo?

Mas como é possível que a regulação permita que estes projetos "roubem" o conteúdo a quem os produz? É uma pergunta que quando tiver resposta poderá ajudar a solucionar uma parte do problema. Mas não é só isto que trouxe os jornais ao ponto em que estão.

 

A cultura do conteúdo gratuito, suportado apenas pela publicidade, é limitada e a oferta em demasia apenas faz com que as fatias sejam cada vez menores. Afinal, o investimento publicitário não tem crescimentos que acompanhem a multiplicidade dos projetos que surgem no mercado.

 

Hoje em dia coloca-se tudo no mesmo saco. Conteúdo vai desde um vídeo de gatinhos aos saltos; um GIF animado; a notícias. Mas há uma diferença.

 

Obviamente, até por uma questão profissional, e no que a notícias jornalísticas diz respeito, o jornalista que as produz e a publicação que as divulga, tem de ter maior relevância. Um jornalista e um órgão de comunicação social devem respeitar regras deontológicas básicas e perfeitamente identificadas com o objetivo de manter a integridade, por um lado, e a defesa do cidadão, por outro.

 

Por isso, quando se fala no Facebook ou Twitter como se de órgãos de comunicação social se tratasse, é preciso lembrar que não o são. E a prática do que tem sido feito é clara: a comunidade promove e partilha conteúdo copiado de fontes originais, algumas vezes falso, difamador e que provoca um prejuízo brutal na vida dos visados.

 

O desmentido destas "desinformações" corre de forma mais lenta, não é tão viral e, mesmo depois de se saber que é falso, os algoritmos permitem que passados meses, haja quem volte a fazer circular coisas antigas como se de novidades e tratassem. É o poder do "vírus", por mais que se ataque, consegue sempre sobreviver!

 

É impossível esquecer que, também graças à atual situação dos órgãos de comunicação social, do formato de negócio associado, muitas vezes se assiste a atentados à profissão. Nas redações falta memória, atribui-se responsabilidade a estagiários, paga-se mal (o negócio não dá para mais); aceita-se que outras funções têm de ser bem remuneradas mas que um jornalista deve ser mal pago.

 

Insisto que a seleção natural está nas mãos dos leitores. Se aceitam ler qualquer coisa, independentemente da fonte, e se, no caso da Internet, o que ajudam a partilhar é o conteúdo de um qualquer site, que nem sequer é a fonte original da notícia, estão a contribuir para que essa fonte de produção seque. A consequência será óbvia: os jornais despedem os jornalistas, as notícias com qualidade deixam de existir, e o conteúdo de qualidade desaparece. A questão é: será que os leitores vão sentir falta da qualidade?

 

Os jornais em papel continuam a ter alguma resistência ao digital. Ainda sentem que não devem ter online as notícias do papel. E estariam corretos se não fosse permitido a terceiros pegar nessas notícias e colocá-las em sites, espalhadas pelas redes sociais. na maior parte dos casos, a fonte original da notícia desaparece da equação.

 

O tema é um pouco semelhante com o que sucedeu há uns anos com as empresas de clipping. Basicamente pegavam nas notícia dos jornais, empacotavam e vendiam a bom preço o serviço a empresas que, dessa forma, tinham acesso à informação que queriam, sem ter de comprar jornais.

Nessa altura houve união e as empresas de clipping tiveram de começar a pagar pelo conteúdo. Neste momento, talvez seja o momento de criar regras também para quem usufrui do investimento feito pelos órgãos de comunicação social.

 

Mas os jornais, mesmo aqueles que pensam que estão a apostar forte no digital, precisam de encarar o digital de outra forma. precisam de quem pense digital, de quem desenhe uma estratégia a pensar online, em última análise, até independente da estratégia do papel que se deve focar na diferenciação.

 

Pensar simplesmente que ao colocar meia dúzia de bons jornalistas a escrever para um site fará a diferença, é errado. As variáveis de código, design, possibilidades do que fazer com um mesmo conteúdo, as estratégias de SEO, são mais do que apenas escrever e publicar um artigo.

 

A realidade portuguesa

Muitas vezes questionamos de que forma pode um jornal ser lucrativo? Invariavelmente o peso recai sobre os salários dos jornalistas, sobre o custo com a produção de notícias. Recordo que, sobre os salários, a realidade é bem diferente. Há casos que podem ser considerados abusivos mas a grande maioria ganha ao nível de profissões sem qualificação.

 

Por diversas vezes ouvi, da boca de pessoas com responsabilidade em empresas, menosprezar o trabalho do jornalista. Ir para a rua cobrir um evento, uma conferência de imprensa? Isso faz-se pela televisão que, já agora, envia para a tal conferência um qualquer estagiário, sem capacidade de questionar a personagem, permitindo que em vez de uma conferência se trate apenas de direito de antena. Se todos ficarem a olhar para a TV, é óbvio que aquilo que vai sair no dia seguinte será igual em todos os jornais e limitado à vontade do tempo que o próprio canal decide dar à personagem.

O mercado português precisa de um ajuste. O bolo publicitário, que sustenta as publicações, não tem crescimento que justifique tanta oferta.

O jornalismo sentado é outra coisa qualquer, mas não jornalismo. Os leitores preferem continuar a ler de forma gratuita? Então o jornalismo tem de afinar agulhas e reinventar-se. Se os leitores não querem saber de notícias, não se importam com a qualidade, provavelmente tem de ser seguido um caminho diferente.

 

A recente aposta no content marketing, quando feita de forma estratégica, em conteúdo editorialmente relevante, que coloque os leitores no centro da história, tem sido encarada como uma salvaguarda de futuro. Mas isto funciona com conteúdo e dificilmente se enquadra num plano noticioso. E, apesar de ouvir algumas vozes contra este argumento, o jornalismo puro continua a ser um pilar relevante da democracia.

Quando este jornalismo da notícia acabar a liberdade de expressão irá sofrer mais um rude golpe.

 

Dimensão do mercado

Outra das questões que se coloca ao mercado está relacionada com o número de jornais em excesso e sem diferenciação.

 

Não será difícil perceber que o mercado português é pequeno para dois projetos de economia, por exemplo. É verdadeiramente curto para mais do que dois ou três jornais generalistas (DN e JN, fazem sentido?). Isto, claro, quando se fala em apostar em produção diferenciadora. Porque, no atual cenário, se não vendem, e vivem apenas da publicidade, quanto menos se gastar em produção, melhor.

 

A união faz a força continua a fazer sentido. Se dois jornais como JN e DN se fundirem (obviamente com o prejuízo de alguns postos de trabalho) terão mais força comercial perante um mercado publicitário curto e com muitas opções para negociar.

 

E isto é válido para o papel como será verdade daqui a pouco tempo no digital. Não haverá dinheiro para continuar a sustentar projetos que se imitam e não têm diferenciação. Há projetos com melhor estratégia de marketing, que já sabem tirar partido da comunicação das redes sociais mas que, no final do dia, não são mais do que um plágio dos jornais e jornalistas que investem verdadeiramente na pesquisa da informação.

 

O jornalismo precisa de ser refeito e é nas redações que deve começar, antes de chegar a necessidade de reforma antecipada. Os pilares do jornalismo podem manter-se intactos mas o negócio precisa de ser repensado e, quem sabe, voltar ao tempo dos ardinas.

 

Afinal, até os jornais gratuitos recorrem a este formato para distribuir o papel que produzem.

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