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A rádio não foi morta pelo vídeo, a Internet não matou o jornalismo

Microfone Rádio

"Video Killed the Radio Star", o tema escrito em 1978 por Trevor Horn, Geoff Downes e Bruce Woolley, ainda reside na memória de quem viveu em pleno os anos 80. Na verdade, ao olhar para o panorama dos media, e depois de algumas décadas de televisão, a rádio continua viva. E com um futuro promissor!

 

Mesmo com a Internet, a rádio conseguiu conquistar o seu espaço e, em pleno século XXI, ainda se fala no formato de rádio como um potencial de comunicação com uma dimensão considerável. Os famosos podcast, que as próprias emissoras disponibilizam, são um trunfo ainda por explorar.

 

Para aqueles que acreditam na morte da rádio, pergunto apenas: quando andam de carro, não ouvem rádio? Sim, alguns preferem colocar o MP3 aos gritos, transformando o pequeno veículo numa poderosa arma de poluição sonora (há alturas em que me apetece, e faço o mesmo. Quando estiverem em stress, experimentem ouvir, por exemplo, All the samll things, dos Blink182, com o volume no máximo).

 

Mas, regra geral, para os condutores do dia-a-dia, a companhia da rádio é, com um volume aceitável, uma mais valia, uma companhia.

 

No entanto, precisa de ser reinventada. Para esta análise, vamos dividir o conteúdo em duas partes: informação e entretenimento. Nesta segunda categoria entra tudo aquilo que pode ser considerado mais lúdico como a incontornável música, o humor, as radionovelas... Para quem se esqueceu dos parodiantes de Lisboa, ou nem sequer sabe o que são, uma pequena busca pela Internet pode ser ilucidativa.

 

Mas, na rádio, a música é a rainha do conteúdo. E vai continuar a ser. No entanto, as famosas playlists obrigatórias têm de deixar de existir. É ridículo entrar no carro, ligar o rádio (liga automaticamente, no meu caso) e começar a ouvir uma música, duas, a seguinte. Parar, ir ao dentista ou às compras, e ao regressar ao carro, estar a dar a mesma música. Isto conteceu quantas vezes a quem está a ler este artigo? Demais, tenho a certeza!

 

Um animador já foi, em tempos, o DJ da rádio. Alguém que escolhia a música que passava para as pessoas que o seguiam. Hoje em dia, as playlists obrigatórias limitam esta criatividade. Esta é a principal razão das repetições de músicas num curto espaço de tempo. E pouco interessa que seja o animador A ou B.

 

A minha experiência radiofónica ficou-se pela "era de ouro" das rádios pirata. Ainda andava na secundária, Contraste, era o nome desta rádio situada em Rana, onde morava. As notícias da Lusa chegavam em telex e fita perfurada. Os spots de publicidade estavam em RM (registo magnético), fita que partia com o uso e tinha de ser colada com precisão.

 

A emissão noturna era feita por um autorádio em autoreverse, a tocar sem ninguém presente. A quantidade de vezes que a fita da K7 encravava...

 

Não ganhava salário, nem idade tinha para trabalhar, fazia aquilo como um passatempo, uma paixão que marcou para sempre. Também não dava dinheiro. Nem me recordo bem dos contornos de gestão daquela emissora, mas fazia um pouco de tudo. Editava noticiários, escrevi, na altura, uma radionovela a que chamei "Punk Centeio" (estava na moda o Rock Santeiro) e toda esta novela era uma paródia da versão brasileira.

Tinha esta liberdade pois estavamos já em fase de fecho pela Lei da Rádio.

Tal como o vídeo não matou a rádio, a Internet é uma aliada do jornalismo e não o carrasco! 

Foi ali que o bichinho pelo jornalismo cresceu. Talvez devesse ter seguido o caminho da rádio mas, entretanto, as rádios pirata foram encerradas e o destino tinha reservado outro caminho. Ainda acredito que um dia irei regressar à rádio, quem sabe!

 

Mas, sobre a música, o entretenimento, a revolução, tem de acontecer. A rádio é, também, de quem a ouve. Como é óbvio, a rádio de não se faz dos discos pedidos, mas este é um dos modelos de proximidade que ainda faz funcionar as rádios locais.

 

Não será neste texto que os problemas da rádio serão resolvidos, nem é essa a intenção. O que pretendo é enaltecer a radiodifusão como um dos meios de sempre da comunicação. Será, talvez, desde o início, o modelo mais democrático e prático. E, em muitos casos, a única companhia para a solidão de milhares de pessoas em Portugal.

 

A informação

Creio que, salvo raras excepções, é comumente aceite o papel preponderante de Emídio Rangel na informação radiofónica, mais concretamente na TSF. Mas a informação tem caído, não por falta de profissionais, mas de dinheiro. Afinal, não se chega ao fim da rua, sem ter um custo. A questão é, tal como nos outros meios de comunicação social, quem paga?

 

Abro aqui um parágrafo para assinalar os 28 anos da TSF, onde se discutiu o futuro. Este texto começou a ser escrito há cerca de um mês e acaba por ser uma coincidência a publicação no dia seguinte ao aniversário da rádio que também começou como pirata, muito perto do local onde agora resido.

 

A publicidade, mais uma vez, é a fonte de rendimento das rádios. Infelizmente, o investimento tem sido desviado para o digital, em especial para os grandes players internacionais como o Google ou Facebook. Que, além da fuga a impostos, estão isentos de cumprir obrigações de produção nacional, alheios às regras que pesam nos orçamentos dos meios portugueses.

 

A Internet é, sem dúvida, o meio previlegiado, mas é preciso assegurar que a informação e o entretenimento, a cultura radiofonica, se mantém com capacidade de chegar àqueles que estão, por diversas razões (culturais, económicas, regionais), afastados do digital.

 

A emissão radiofónica é, como costumo dizer, a barata da comunicação: quando houver uma catástrofe, será a única a sobreviver. E, neste caso, como muitas vezes é representado em filmes futuristas/fatalistas, o único elo de ligação entre as pessoas.

 

O futuro dos media está em jogo e a Liberdade de Expressão depende de uma comunicação social forte e pluralista. Falta união, numa classe que tem sido forçada a abdicar do poder de comunicar. Falta a força de fazer frente àquilo que alguém decidiu chamar "jornalismo de cidadão" (este termo esteve na base da criação deste blogue, em 2007), falta olhar para o digital como se olhou para o papel e perceber que o futuro está neste meio e é uma realidade. Mas é preciso ocupar, de forma profissional, o espaço que tem sido ocupado por projetos que ganham dinheiro, sem esforço, sem profissionalismo, sem brio jornalístico.

 

Este artigo, que começou por ser escrito a pensar na rádio, acaba por ser uma carta a toda uma classe que está a permitir que se fale do fim do jornalismo como profissão. Talvez esteja na hora de enfrentar o problema.

Porque tal como o vídeo não matou a rádio, a Internet é uma aliada do jornalismo e não o carrasco!

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